quarta-feira, 30 de março de 2011

ACEITA UMA PROFECIA?

De tempos em tempos surge na história alguma revelação - algo como um registro que ostenta  a predição de eventos futuros. Fato ou não, muitos deles não chegam a acontecer: é o caso das vezes em que fora anunciado um suposto 'fim dos tempos'. (Essa, os profetas ou os interpretadores dos registros deixados por aqueles, vivem errando feio.) Mas, há casos em que eventos observados no mundo parecem corresponder nitidamente a antevisões desse tipo, e aí, não tarda para aparecer os adeptos das chamadas profecias. Nesse ponto, consideremos a relevância de trabalharmos um exemplo notório: o dos cristãos. Eles, em geral, costumam validar o conteúdo bíblico - sua veracidade e 'sacralidade' - com base em alguns acontecimentos no mundo que, segundo eles, tem nítida relação com o texto canônico, afirmando que as profecias têm se cumprido. Ora, o que na verdade fazem, só pode se tratar de uma análise retroativa, em que, feito um recorte entre bilhões de bilhões de eventos no mundo, busca-se um paralelo ao que fora dito por aqueles escritores, ou seja, ninguém leva em conta a imensurável quantidade de eventos que não foram 'preditos'. No caso, nem precisamos mencionar que a maioria dessas previsões não estabelece datação para a ocorrência dos eventos, e sendo assim, talvez valha lembrar que, em se tratando de tempo indefinido, é também indefinido o número de fatos possíveis de ocorrer, o que deste modo, facilita muitíssimo a relação entre o que é previsto e o que de fato acontece. Esses mesmos cristãos advogam também que uma análise do Novo Testamento revela o cumprimento de profecias encontradas no Velho Testamento. No entanto, sabe-se que os escritores do Novo Testamento tiveram acesso às escrituras hebraicas, e por isso mesmo, nada os impedia que simplesmente criassem narrativas, às quais pudessem ter alguma equivalência com o que já se conhecia (na verdade, é possível que, exatamente, esse tenha sido o critério de seleção dos Evangelhos entre tantas versões da história cristã contemporânea disponíveis à época do Concílio de Nicéia: a sua concordância com o Velho Testamento). Enfim, voltemos à questão inicial com a seguinte reformulação: Seria possível que as chamadas profecias e sua relação com os fatos no mundo fosse apenas coincidências?
Circula na internet um e-mail que relaciona objetos e pessoas dos EUA ao terrível ataque terrorista de 11 de Setembro. Nele, é apresentado, por exemplo, as duas faces de uma nota de vinte dólares, que, dobrada, revela incrivelmente as imagens do Pentágono e das Torres Gêmeas pegando fogo, e ainda, da mesma maneira, aparece a palavra Osama numa das extremidades da cédula. Além disso, há cerca de outras dez correlações a esse evento, envolvendo lugares e nomes de presidentes daquele país. O que se pode dizer nesse caso? que havia predições sobre o funesto acontecimento? Parece-nos improvável, não é mesmo? De fato, se dispusermos de tempo suficiente para uma análise retroativa minuciosa, encontraremos não uma dúzia de equivalências, mas muitas outras. Do mesmo modo, poderíamos elencar milhares de não-equivalências, isto é, inúmeros aspectos em que não se encontra qualquer paralelo entre o evento e esses objetos e pessoas. Pensando bem, são infinitamente maiores os casos de não-coincidências em comparação ao que coincide, mas, nós, seres humanos, temos a tendência de nos apercebermos e darmos destaque para eventos que encontram algum tipo de correspondência no mundo. Vejamos estes outros casos:  1- Toda vez que Thaís atrasa do seu horário normal de voltar para casa à noite, depois da faculdade, sua mãe pensa ter acontecido algo com ela e se aflige com essa hipótese, mas, para conforto dela, a filha sempre chega bem, dizendo ter havido somente dificuldades com o transporte público. Observem que, no dia que vier, e se vier a acontecer um incidente com a jovem, a mãe invariavelmente sentirá e/ou declarará que teve uma espécie de predição, ou presságio daquele evento. 2- Amarildo é um enfermeiro de 40 anos; toda noite ele tem sonhos, sempre variados, múltiplos e desconexos - como a maioria de nós. No dia que sua esposa sofre um grave acidente no trânsito e vem a falecer, ele prontamente correlaciona o fato a um sonho que tivera na noite anterior, no qual socorria uma bonita mulher gravemente ferida numa batida de automóvel. Ora, enquanto esse incidente não ocorreu, Amarildo nunca fazia menção dos sonhos (talvez nem pudesse se recordar deles com exatidão), mas, no momento em que, porventura, um só sonho coincidiu com um evento significativo para ele no mundo real, Amarildo não hesitou em traçar um paralelo de equivalência entre eles, e naturalmente conjecturou tratar-se de uma antevisão, previsão ou predição da morte de sua bela esposa.
Então, chamamos a atenção para essa nossa absurda capacidade de selecionar e correlacionar eventos - apontamos coisas extraordinárias que, de fato, não passam de casualidades (pense por outro lado na infinidade de acontecimentos do mundo real, inclusive simultâneos, que poderiam ser associados diretamente aos sonhos do enfermeiro, mas que, de maneira simples e automática, foram descartados, uma vez que não seriam relevantes para o sonhador em questão). Reunindo esses poucos argumentos (teríamos muitos outros para descrever, os quais, porém, fariam este post longo e cansativo) é que argüimos sobre a aceitação de profecias. Portanto, fiquemos atentos, no próximo ano (2012), caso haja qualquer acontecimento catastrófico, este será, sem sombra de dúvida, o fatídico cumprimento da 'Profecia Maia' - nas bocas e mentes 'inocentes'. (Essa podemos “profetizar"...)

quarta-feira, 16 de março de 2011

GOSTO NÃO SE DISCUTE?

Já se perguntou por que você gosta do que gosta? Será que existe alguma coisa impelindo ou determinando nossos gostos pessoais? Paremos pra pensar: se eu tivesse nascido e vivido na África, eu iria gostar das mesmas coisas que gosto hoje? É muito provável que não, até porque o que temos disponível aqui difere, em grande parte, do que é disponível lá. Pelo mesmo motivo, é razoável dizer que se tivéssemos nascido no Século IX nossos gostos seriam completamente adversos dos atuais: coca-cola e games (naquela época sequer poderiam ser mencionados). É fácil perceber, então, que nossos gostos são diretamente moldados pela localização geográfica e tempo histórico aos quais nos integramos. Mas nisso, vai ainda outros fatores que devem influenciar-nos:  por exemplo, a cultura nacional. Os valores cultivados por anos a fio em um grupo social tendem a cercar e conduzir os indivíduos nascidos naquela sociedade, e manipular, ainda que despretensiosamente, suas escolhas.
Parece justo assimilarmos a idéia de gostar de algo com a idéia de escolha, haja visto que, tanto quanto pudermos, escolheremos aquilo que gostamos. Entretanto, nem tudo que podemos gostar, nós podemos escolher: voar livremente como um pássaro pode ser o gosto de alguém, mas não pode ser sua escolha, do mesmo modo,  não gostar de se preocupar com alimentação, ou não precisar se alimentar (e ainda assim continuar vivo) poderia ser o desejo de alguém, mas não pode ser sua opção. Se formos mais a fundo nessa linha de raciocício, veremos que nossa liberdade de escolha é meramente fictícia, pois ela estará sempre limitada a opções já dispostas para nós, de antemão. E aqui esbarramos na controvertida noção de livre-arbítrio, cunhada pela religião cristã,  mas esse é assunto pra outro post.  A propósito, se você fosse indiano você escolheria cultuar o deus cristão? Bem, pelo visto estamos discutindo aquilo que o senso comum diz que não se pode discutir, não é mesmo? Em contrapartida, para os filósofos tudo é discutível por todos. E isso, não com propósito em si mesmo, mas, como recurso para ampliar saberes; um método de busca da verdade; ou simplesmente para nos nos encontrar. É como diz uma das analogias  do filósofo Jostein Gaarder: somos como peças de Lego tentando se encaixar umas nas outras - e buscamos desesperadamente achar algum sentido nisso.

PS: Esse meu texto foi adaptado e publicado em livro de crônicas sob demanda de Valdeck Almeida.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A EVOLUÇÃO descoberta por Darwin CONTINUA A OPERAR?

A resposta para essa questão pode ser um surpreendente ‘talvez’ (tanto para criacionistas como para evolucionistas).  Entretanto, antes de argumentarmos qualquer defesa, precisamos entender dois processos referentes a esse assunto, a saber, a Seleção Natural e a Seleção Artificial
A Seleção Artificial é realizada por mãos humanas. Seus agentes são: cientistas que adulteram geneticamente algumas espécies – como é o caso da soja transgênica, mas também o  homem comum, que, porventura, seleciona animais domésticos, de acordo com as características que lhe apraz, isto é, o gosto pessoal de cada um. Neste último caso, um bom exemplo é a variedade de raças de cães, que é certamente resultado desse tipo de seleção. Todos os caninos modernos que possamos lembrar, como: chiuaua, são bernardo, doberman, labrador, pincher, etc. (a lista é enorme: são mais de 800 tipos) - cada um com suas particularidades que o distingue dos demais, possuem um ancestral comum: o lobo selvagem. Essa diversidade de descendentes se deve ao fato de que nós escolhemos os caninos que queremos criar; selecionamos pela cor, pelo tamanho, pela esperteza, enfim: diversas qualidades. Trouxemo-os, gradativamente,  da selva para a cidade, e assim, pouco a pouco, mudamos artificialmente seus hábitos. Além disso, determinamos também, muitas vezes, a copulação desses animais (com qual outra raça os deixamos “cruzar”- popularmente falando) porque queremos “boas” qualidades em seus filhotes. Desses dois modos, acima descritos, é que a Seleção Artificial acontece. Assim, decidimos quais as características fenotípicas serão levadas em frente, e por consequência as informações genéticas que prosseguirão nas sucessivas gerações de cães.
Bom, em tese, é com a mesma simplicidade que ocorre a Seleção Natural (aquela, descoberta, em meados do século XIX, pelo brilhante naturalista Charles Darwin) - embora, o selecionador, neste caso, não seja o homem.

Como bem disse o educador Ruben Alves, a natureza viva, ou tudo que tem vida neste planeta clama por eternidade, ou seja, faz, extraordinariamente, qualquer coisa para manter-se vivo, e, por isso ou em função disso, é inata a capacidade de reprodução em todas as formas de vida - são os famosos “instinto de sobrevivência” e “instinto de perpetuidade da espécie”. 
Ao se reproduzirem, os seres vivos repassam as informações de seus genes; estes, por sua vez, podem sofrer uma pequena mutação, e o descendente repassará a informação genética ligeiramente modificada, ou não, para a geração seguinte, e assim por diante, gradualmente. Ao longo de muitas gerações, essa ínfima mudança, que, em suma, visa a adaptação e sobrevivência dos seres, estará acumulada, influenciando obviamente, o desenvolvimento das espécies, isto é, transformando seus corpos ao longo de muitos milhares de milhões de anos – é o que preconiza a Teoria da Evolução. O biólogo Richard Dawkins afirma que o elemento executor da Seleção Natural é a morte: é por causa dela que os seres se aprimoram e evoluem, pois, como dissemos, seguem sua vocação para o viver. Dito isso, chegamos ao ponto chave, e portanto, estendemos a pergunta inicial: "Se todos os animais superiores evoluíram de formas de vida mais primitivas, por que ainda existem simples peixes? por que não se transformaram em aves ou lagartos? E as inúteis baratas? por que ainda estão por aí? Esses seres continuam a evoluir? E quanto ao homem? passou pelos neandertais, chegou ao homo sapiens e parou em nós?"
Bem, na seleção darwiniana, um corpo que possui o que precisa para sobreviver, automaticamente tem seus genes preservados dentro de si, e estes, conferem aos corpos as qualidades que os ajudam a sobreviver. Pensando assim, podemos dizer que os tais peixes e baratas ainda são o que são porque sobrevivem, seus predadores, ou mesmo o ambiente, não ameaçam sua existência, o “selecionador” – a morte, não requereu deles, ainda, qualquer mutação; pelo contrário, tem levado adiante os genes necessários para que sobrevivam na forma que os são (é como dizer que conquistaram seu espaço neste mundo). Além disso, nossa percepção nos engana porque esses seres não são, de modo algum, primitivos, pelo contrário, são altamente "modernos e sofisticados", no sentido de que seus genes tiveram tempo suficiente para melhorar características (como a visão, olfato ou a velocidade do nado), que lhes  garantiram a subsistência e subsequente reprodução. O mesmo pode-se dizer dos homens: não havendo pressão evolutiva, ele segue vivendo na forma que é. Entretanto, isso não descarta a hipótese de que, futuramente (em mais um milhão de anos, talvez), esse homem não sofra seleção. O fato é que somos incapazes de perceber a evolução, uma vez que, como afirma a teoria evolucionista, ela opera em escalas adversas a nossa compreensão de tempo – e este é um dos fatores que contribuem para a nossa incredulidade na fenomenal idéia darwiniana. Então, pode ser que já estejamos sendo selecionados: os que morrem sem se reproduzirem não repassam as informações genéticas - estas que nos tornam, naturalmente, aptos para a vida. 
É difícil imaginarmos um tempo suficiente para que o acúmulo de informação genética cause transformações em nossos corpos, ao ponto de que possamos viver mais; inclusive, não temos ciência de que esses genes, intervindo na formação do nosso cérebro, possam também modificar nossa forma de pensar, todavia, se for o caso, desejamos que essa evolução seja em breve, até para que, os menos evoluídos de nós possam, algum dia, admitir o evolucionismo sem medo.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

À IMAGEM E SEMELHANÇA DE QUEM?

Ao homem que ascendeu de uma paralisia mental acerca das questões mais complexas que o rodeia para uma postura crítica da realidade, é-lhe dado o prazer de entender e explicar coisas à luz  de uma sabedoria lógico-racional adquirida conscientemente - coisas que outrora estiveram confortavelmente alojadas no calabouço da religião, mas que agora inquieta-lhe a alma: "buscadora veraz de uma veracidade verossímil". Pensando assim, tencionamos articular uma resposta para o como chegamos a uma imagem ou caracterização de deus.


Na nossa cultura, vemos deus através do prisma da religião cristã. Segundo essa tradição, deus teria se revelado a nós na pessoa de Cristo: humano e divino simultâneamente, do qual só temos conhecimento de três anos de sua vida em registros históricos. O fato dele ter encarnado em um homem e não numa mulher influencia drasticamente na imagem que fazemos de deus, ainda que, muitos de nós resistamos à conjectura de que deus possua sexo, ou melhor, gênero masculino ou feminino. Bom, isso é mero detalhe se comparado aos vários exemplos contidos na narrativa bíblica de um deus com características humanas. O deus lá representado é um deus que possui cabeça, mãos, pés, costas; um deus que se ira, se arrepende, se vinga, se entristece; um deus que abençoa e recompensa o bom, e, despreza e condena o mau (presenteia com a vida eterna ao que fizer a SUA vontade e rejeita e lança no eterno sofrimento ao que não a fizer) - além de tudo, um deus egoísta, mesquinho. Quem conhece um pouco dos textos canônicos vai lembrar destas paráfrases que exemplificam algumas ordens divinas ali descritas: /Moisés, separa o povo por etnia, e mata todos quantos não forem israelitas. /Josué, separa o povo por crença, e aqueles que não adoram ao deus de Abraão devem ser mortos: homens, mulheres, crianças; tome teu exército e destrua também os bens e os animais desses homens, pois não são dignos do reino./ - ou seja, um deus completamente  preconceituoso, partidário, segregacionista. Mas haverá aqueles que queiram contestar dizendo que essas coisas e atitudes de deus  estão no Velho Testamento, e completariam "Cristo regovou a Lei". Isso é o mesmo que dizer: 'deus revogou a si mesmo'. Por quanto, se a Lei  que  Moisés escreveu era advinda de Deus, logo era a Lei de deus, sendo assim, ela era boa, certo? como pode o deus que a criou e ordenou aos homens, simplesmente contrariar-se quando encarnado  no Cristo? Então, só pra terminar essa curta lista de atributos humanos no deus que a religião inventou, temos de afirmar que ele é também contraditório e indeciso. Talvez ele não soubesse que a primeira Lei não seria eficaz e de última hora quis reverter tudo na cruz. Nesse caso, a onisciência e a onipotência desse deus nunca existiram.
Ora, não nos parece estranho um deus demasiadamente humano como esse? Um deus que usa os mesmos pesos e medidas que nós, homens imperfeitos, não é tão pequeno quanto? não é tão limitado quanto? Sim, há de parecer estranho e  inconcebível para aquele, que dizíamos no primeiro páragrafo deste texto, mas para o outro, imergido numa fé cega, é pura bobagem questionar-se a respeito. Vejamos que esse deus bíblico não pode ser sequer uma caricatura do deus Supremo, Essência do Universo, Causa Primal, Fonte Criadora, Princípio Uno da existência. E a razão por trás desse estereótipo medíocre de deus é nossa própria limitação em depreendê-lo tal como ele é. Dito de outro modo, é natural o homem não poder ter idéias não-humanas para caracterizar deus, para caracterizá-lo divinamente teria de possuir idéias divinas, o que resultaria em ser, o homem, igual a deus.  Assim, nossas tentativas de descrever deus e seus atributos só pode ser equivocada, muito provavelmente, igualável à própria caracterização humana. (Se uma girafa pudesse idealizar um deus, provavelmente ele seria pescoçudo e de manchas marrons...). Os homens 'fizeram' deus à sua imagem e semelhança. Está escrito!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

SEXO É RACIONAL?

Tomemos o enunciado de Aristóteles - "O homem é um animal político" - não como um argumento para o tema que pretendemos tratar, mas apenas como base para a investigação expressa no título deste texto. No caso, não vamos precisar de toda a sentença, mas apenas, até onde, o mestre precursor da classificação dos seres vivos, declara que 'o homem é um animal'.
Em primeiro lugar, entendamos que a acepção para homem aqui  utilizada é raça humana. Então, reformulemos: 'a raça humana é animal'. No entanto, essa expressão pleonástica não nos diz tudo que a humanidade é, somente reforça uma parte dela. Assim, podemos complementá-la com a enunciação "Os humanos são racionais", e desse modo, deprendermos duas de suas características fundamentais: o instinto e a razão. Posto isso, perguntamos: a inclinação humana para o sexo é algo instintivo ou reflete uma decisão consciente e pessoal do ser? Ora, para buscarmos uma resposta plausível, teremos obviamente que fragmentar a noção de sexo nas partes que a envolve, estamos falando dos seus propósitos intrínsecos, ou seja, prazer e procriação
Parece-nos que há uma norma natural que visa a perpetuação das espécies, pois, une-se (em todo o meio animal) um gameta macho a um gameta fêmea, de mesma espécie, para que seja possível procriar. Essa lei da natureza não permite, por exemplo, que o cruzamento (ainda que possível) entre um jacaré e uma zebra gere descendentes. Ou, em outras palavras, um homem e uma galinha, ainda que possam realizar uma copulação, não podem, por meio desse ato sexual, dar origem a um novo ser. Mas, e quanto ao prazer sexual? há também uma norma natural que determine como e com quem possa ser desfrutado? Parece-nos que não, uma vez que isso pode ser obtido até mesmo numa autoestimulação genital. Desta forma, não existe nenhuma lei da natureza para esse aspecto da sexualidade humana. Portanto, deve tratar-se de uma decisão consciente do indivíduo; uma atitude racional. Outrossim, só nos resta dizer que, uma moral é que impõe certas "regras" nesse sentido. A partir daí, podemos nos deparar com a seguinte problemática, reflitamos: se um homem decide ter prazer no sexo com outro homem, ele não está indo contra sua natureza (como muitos podem preconceituosamente afirmar), porque, pelo visto, não há nenhuma lei natural que determine essa percepção. Ou, se é natural que o homem só possa sentir prazer sexual com a mulher e vice-versa, estes não poderiam chegar ao orgasmo de outras maneiras. Se considerarmos radicalmente o pensamento preconceituoso, citado acima, teremos a conclusão de que todo homem que pratica a masturbação também é homossexual, já que ao invés de sentir prazer sexual com uma mulher, o sente consigo mesmo, que é homem. Em contrapartida a isso, podemos pensar que não há nenhum mal (se é disso que a moral quer nos defender) em o ser humano ter a liberdade de decidir com quem deseja sentir prazer sexual, até por que, não está, fundamentalmente atrelada a isso, a nossa instintiva perpetuação da espécie; embora, as duas coisas possam ser conciliadas.


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

OS LIVROS SAGRADOS TEM RAZÃO?

Os livros ditos sagrados que regem as grandes religiões do mundo reclamam para si o serem detentores de toda a revelação divina, destinada a nortear o viver humano e a desanuviar o pós-morte. Dada a discrepância entre as mensagens reunidas em cada um desses volumes, não se pode afirmar que partiram de um mesmo deus único, absoluto, perfeito e verdadeiro, pois não pode, ele mesmo, ser contraditório. Daí, podemos depreender que essa inconsistência é advinda daqueles que ostentaram ser os mensageiros da verdade divina, e que, se há alguma coisa que possa nos fazer tomar uma dessas escrituras por tal atributo, essa coisa é , não razão.

Pensemos, então, um pouco, a Bíblia – o livro no qual se baseia toda a cultura judaico-cristã. Seus textos datam de milhares de anos, e ainda assim, exercem uma voraz influência na vida das pessoas. Seus sectários defensores alegam que ela é a mais perfeita, pura e irrefutável “palavra de deus” aos homens. Será que não lhes ocorre que ela tenha sido concebida por mentes e mãos humanas imperfeitas, e que dessa forma, estas não poderiam conceber algo perfeito? Bem, se quisermos postular a perfeição desses homens ou sua plena santidade, então, teremos de equipará-los à Divindade, e portanto, admitir a existência de deuses de carne e osso entre nós, do contrário, só podemos compactuar com a idéia de que, ainda que fossem mensageiros fidedignos da Verdade, essas mensagens não poderiam deixar de ser adulteradas pelo espectro temporal da vida particular e do pensamento de seus transmissores, haja vista, a impossibilidade de eles serem perfeitos. Ademais, as únicas pessoas que testificam a veracidade do relato bíblico são seus próprios escritores: o apóstolo Paulo escrevendo a seu discípulo Timóteo diz “esta escritura é inspirada por deus”, objetivando que suas palavras fossem passíveis de todo crédito. Ora, como podemos aceitar cegamente que as orientações vindas de um homem de outro período histórico, inserido num contexto social peculiar, que escreve uma carta destinada a uma pessoa específica, determinem a nossa vida prática, sem termos sequer o direito de contestá-lo? O mesmo se aplica aos outros escritores bíblicos. Vejamos o caso de Moisés: em sua tentativa de descrever a origem do mundo e dos homens, ele conseguiu um feito catastrófico, que perdurou por milhares de anos envenenando e atrasando a história da humanidade, algo que só poderia estar vinculado a mentalidade primitiva dos homens de sua época e não a de um deus Justo e Perfeito. Estamos falando da mulher: subjulgada como causadora do mal (ao ceder a oferta da serpente) e, considerada espécie inferior ou dependente da do homem (ao ser formada a partir de um fragmento do corpo masculino). Reparem o quanto essa concepção privou a mulher do seu status social de igualdade, e como essa alegoria arcaica germinou entre os homens, contribuindo para que não fossem dados voz e vez a ela. O apóstolo, referido anteriormente (centenas de anos depois de Moisés), chegou a dizer que a mulher deveria permanecer calada em certos encontros públicos daquela sociedade. A coisa foi tão degeneradora, que muitas mulheres, em todo o mundo, assimilaram os traços de identidade que lhes foram atribuídas durante séculos , isto é, de  inferiores, de frágeis; quando, de fato, em nada, poderiam representar um subnível em relação aos homens, pois são, ambos, homem e mulher, igualmente plenos humanos; dotados das mesmas características essenciais. Somente agora, há menos de cem anos, depois de sofrer inúmeras injustiças, a mulher é elevada ao patamar de indíviduo soberano e consciente, cidadã do mundo ocidental. Como se vê, as paixões e os desejos mesquinhos de poder dos homens manifestaram-se desde a Antiguidade, mas, com o passar do tempo, esse pensamento evoluiu (apesar de que, permanece retrógrado, ainda, em muitas culturas do Oriente Médio). Outrossim, se Paulo vivesse em nosso contexto social de hoje, talvez ajudasse a colocar uma mulher no mais alto cargo público de uma "nação cristã e democrática" – a presidência, elegendo-a representante máxima dos ideais de justiça e paz almejados por todos  (como temos visto recentemente aqui na América do Sul). Sim, aquele que disse que o homem era "o cabeça" da mulher, e ela, "a submissa", daria , hoje, não só voz a essa mulher, como permitiria que ela fosse a voz delas e deles.
O que estamos tentando enfatizar aqui, é que não dá para desvincular nenhuma narrativa do período histórico no qual ela foi escrita, muito menos do contexto social em que está inserida ou da visão de mundo de seus escritores. Vejam vocês que a “obra canônica” apresenta o “olho-por-olho, dente-por-dente” como a maneira mais nobre e justa do homem lidar com os conflitos de sua época, mas, hoje, trata-se, no mínimo, de uma idéia digna de repúdio. Assim, compêndios religiosos como a Bíblia, o Alcorão, o Livro dos Vedas, a Bhagavah Gita, Shruti, Torá, Livro dos Mórmons, Suna, Avesta, entre outros, só podem ser encarados como uma riquíssima produção literária, alguns, com valiosas referências histórico-culturais; mas incapazes de subsidiar uma interpretação coerente e ajustada ao mundo contemporâneo e suas relações sociais.

Para finalizar, endossamos os pareceres de Fernando Pessoa e Clarice Lispector que respectivamente poetizaram: “Pensar é descrer” e “[Deus], receba em teus braços o meu pecado de pensar”, para dizer que não nos parece racional postular um livro como o supremo registro sagrado da verdade para todos os povos em todos os tempos, que determine as minúcias da vida prática, e que, em nenhum desses textos reducionistas, e desarmonizados com o Todo Universal, possa estar a razão norteadora de nossa busca pessoal e sincera por um vínculo essencial com deus. Além disso, nós temos a mesma capacidade, senão maior, que os antigos, de, também, buscarmos decifrar o grande Enigma. Talvez, antes de aderirmos a este ou aquele livro que se auto-proclama sagrado, devêssemos fazer a mesma pergunta que Sócrates direcionou aos sacerdotes e sábios atenienses de sua geração: “Isso que vocês chamam de sagrado é puro, bom e belo, e por isso é sagrado, de deus? ou, isso é sagrado, de deus, e portanto, puro, bom e belo?”. A resposta implica fatalmente em avaliarmos quem está atribuindo sacralidade a quê, e ainda, enxergarmos sob quais critérios está havendo tal atribuição.