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quarta-feira, 16 de março de 2011

GOSTO NÃO SE DISCUTE?

Já se perguntou por que você gosta do que gosta? Será que existe alguma coisa impelindo ou determinando nossos gostos pessoais? Paremos pra pensar: se eu tivesse nascido e vivido na África, eu iria gostar das mesmas coisas que gosto hoje? É muito provável que não, até porque o que temos disponível aqui difere, em grande parte, do que é disponível lá. Pelo mesmo motivo, é razoável dizer que se tivéssemos nascido no Século IX nossos gostos seriam completamente adversos dos atuais: coca-cola e games (naquela época sequer poderiam ser mencionados). É fácil perceber, então, que nossos gostos são diretamente moldados pela localização geográfica e tempo histórico aos quais nos integramos. Mas nisso, vai ainda outros fatores que devem influenciar-nos:  por exemplo, a cultura nacional. Os valores cultivados por anos a fio em um grupo social tendem a cercar e conduzir os indivíduos nascidos naquela sociedade, e manipular, ainda que despretensiosamente, suas escolhas.
Parece justo assimilarmos a idéia de gostar de algo com a idéia de escolha, haja visto que, tanto quanto pudermos, escolheremos aquilo que gostamos. Entretanto, nem tudo que podemos gostar, nós podemos escolher: voar livremente como um pássaro pode ser o gosto de alguém, mas não pode ser sua escolha, do mesmo modo,  não gostar de se preocupar com alimentação, ou não precisar se alimentar (e ainda assim continuar vivo) poderia ser o desejo de alguém, mas não pode ser sua opção. Se formos mais a fundo nessa linha de raciocício, veremos que nossa liberdade de escolha é meramente fictícia, pois ela estará sempre limitada a opções já dispostas para nós, de antemão. E aqui esbarramos na controvertida noção de livre-arbítrio, cunhada pela religião cristã,  mas esse é assunto pra outro post.  A propósito, se você fosse indiano você escolheria cultuar o deus cristão? Bem, pelo visto estamos discutindo aquilo que o senso comum diz que não se pode discutir, não é mesmo? Em contrapartida, para os filósofos tudo é discutível por todos. E isso, não com propósito em si mesmo, mas, como recurso para ampliar saberes; um método de busca da verdade; ou simplesmente para nos nos encontrar. É como diz uma das analogias  do filósofo Jostein Gaarder: somos como peças de Lego tentando se encaixar umas nas outras - e buscamos desesperadamente achar algum sentido nisso.

PS: Esse meu texto foi adaptado e publicado em livro de crônicas sob demanda de Valdeck Almeida.